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Como Aracaju ampliou vigilância com tecnologia inspirada em modelo israelense

Em todas as capitais do Nordeste, por exemplo, existe algum projeto de reconhecimento facial em voga.

Por Deris Informática · 07/07/2026
Como Aracaju ampliou vigilância com tecnologia inspirada em modelo israelense

Dentre as múltiplas dimensões do genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestino, o desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao conflito gera amplo debate. Entre bombardeios e anúncios de cessar fogo, o emprego de sistemas como Lavender e o Gospel pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) dão a dimensão do uso intensivo de inteligência artificial num processo que Juan Felipe Loureiro Magalhães denominou de genocídio automatizado.

A situação se torna ainda mais grave quando consideramos que tanto pela velocidade de processamento de dados por tais sistemas, quanto pela quantidade dos dados processados, há pouca ou nenhuma supervisão humana dos alvos definidos. Esse estado de coisas levou autores como Sérgio Amadeu a se referir à existência de um Complexo Militar-Industrial-Dataficado, onde empresas de natureza civil (as BigTech) passam a atuar cada vez mais em função da aplicabilidade militar de suas tecnologias.

Mas o impacto das tecnologias empregadas no genocídio palestino não se restringe a conflitos internacionais. A automatização e algoritmização do exercício da violência tem se alastrado amplamente, especialmente diante da exportação do modelo securitário israelense. Dados d’O Panóptico indicam que até abril de 2026 haviam 535 projetos que utilizavam técnicas de reconhecimento facial em vigência no Brasil, com um total de 97.923.309 pessoas potencialmente vigiadas. Em todas as capitais do Nordeste, por exemplo, existe algum projeto de reconhecimento facial em voga.

No Brasil como na Palestina, o elemento racista desses mecanismos é evidente. Seja nas práticas coloniais de controle da população árabe imposta por Israel na Palestina ou nas práticas racistas que pautam a atuação das forças policiais brasileiras, as tecnologias de vigilância e controle têm cada vez mais reforçando o exercício de controle como populações marginalizadas. Aqui, ao perfilamento racial se somou o racismo algorítmico – conceito cunhado por Tarcízio Silva que reflete justamente o viés racista de tecnologias como as de reconhecimento facial.

O mercado de segurança privada brasileira é um bom exemplo da importação do modelo israelense. Em cidades como São Paulo câmeras de vigilância têm se tornado parte constitutiva da paisagem urbana. Até agora, a preocupação sobre o processamento dos dados coletados por tais empresas segue sem a devida atenção diante da gravidade do problema. O caso do Grupo Haganá é sintomático. Atuando nos setores de segurança privada e patrimonial, o grupo reivindica metodologia israelense em suas práticas. Em seu próprio site afirma ter sido fundado em 1977 por ex-militares do exército de Israel. Haganá significa defesa em hebraico.

Mas também o poder público tem fomentado a vigilância como pilar de uma suposta segurança. Em São Paulo, o Smart Sampa se apresenta como o “maior sistema de monitoramento de segurança da América Latina” e usa de reconhecimento facial para “identificar casos de violência e foragidos da política”.

Em Aracaju, em 2025, a Secretaria Municipal de Segurança e Cidadania (SSM) de Aracaju abriu processo para contratação, por inexigibilidade de licitação de empresa especializada em serviços de locação, instalação e manutenção de sistema de repressão, monitoramento e atendimento a emergências, os chamados totens de segurança. Por meio do processo registrado sob SSM/AJU-IN0001/2025, foi contratada a empresa Helper Tecnologia. Com isso, naquele ano, foram instalados totens de vigilância na capital com o pretexto de, supostamente, otimizar o emprego das forças de segurança municipais.

O contrato firmado com a Helper Tecnologia, de CNPJ número 13.644.990/0001-42, foi homologado no valor total de R$ 2.335.735,80, prevendo inicialmente a instalação de 10 totens de vigilância em diversos pontos da cidade, como a Orla de Atalaia e o calçadão de João Pessoa, no Centro. Os locais são de grande circulação da população, que tem agora seus dados coletados e processados por uma empresa privada cuja contratação sequer atendeu a adequado processo licitatório.

O emprego dessas tecnologias não ocorre como mero recurso técnico. Ele surge em meio a uma escalada repressiva na atual gestão da Guarda Municipal de Aracaju (GMA). Ao assumir a prefeitura, a bolsonarista Emília Correia (Republicanos) indicou para a SSM o nome de André David, tornando-o assim responsável pela GMA.

Delegado da polícia civil, David fez carreira com um misto de propaganda e repressão, que imprimiu em sua gestão à frente da Secretaria os mesmos sensacionalismo e truculência que pautaram sua atuação policial. Sob seu comando, a Guarda se envolveu em episódios de abuso, como evidencia o caso de abuso de autoridade contra flanelinhas no centro de Aracaju ou ainda a truculência contra feirantes também no centro da capital.

No mesmo ano, a prefeitura firmou declaração conjunta de cooperação com o Estado de Israel. O documento, cuja existência só veio a público a partir de esforço investigativo da Mangue Jornalismo, previa esforços conjuntos em áreas tão diversas quanto recursos hídricos, agricultura, ciência e tecnologia e segurança pública.

Na esfera estadual, o emprego de tecnologias de reconhecimento facial tem fomentado violências de cunho racista contra a população sergipana. Em 2024, João Antônio Trindade, um homem negro de 23 anos, foi vítima de abordagem indevida decorrente de falsa identificação por reconhecimento facial durante uma partida de futebol na capital sergipana. Mesmo tentando se apresentar, João foi constrangido e escoltado pela PM para fora das arquibancadas.

Um ano antes, em 2023, Thais Santos, uma mulher negra de 31 anos, foi igualmente vítima dos equívocos de tecnologias de reconhecimento facial. Em meio ao Pré-Caju, Thais foi abordada duas vezes no mesmo dia por conta de alertas emitidos pela ferramenta utilizada pelo governo do estado. O relato da vítima da conta da truculência e despreparo dos agentes. Para Thais, a discriminação ocorreu por ser pobre e preta.

Os efeitos práticos da adoção desse modelo securitário são graves. Reforçamos padrões de truculência das forças de segurança, dando um suposto aval tecnocrata a decisões baseadas em vieses racistas e de classe, tanto no âmbito do indivíduo que toma a decisão na ponta quanto no campo algorítmico.

Normalizamos uma cultura baseada na vigilância constante, sem qualquer debate sobre o direito à privacidade e ao adequado tratamento de dados pessoais. Seguimos, enfim, apostando e normalizando um modelo de segurança que gera mais vítimas do que reduz a violência urbana. Que marginaliza e define espaços e quais os corpos são dignos ou não de viver a cidade. Sob o pretexto de cidades inteligentes, construímos cidades sitiadas onde as forças de segurança, com seus novos brinquedos, são instrumentalizadas num projeto excludente.


Referências

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. As Big Techs e a Guerra Total: o complexo militar-industrial-dataficado. São Paulo: Hedra, 2025. Fonte: https://manguejornalismo.org/

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